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Elementos Para Uma Espiritualidade da Sustentabilidade
Bases para uma visão cristã da crise ambiental a partir da espiritualidade inaciana
   

Por Luiz Fernando Krieger Merico


Elaborado por Luiz Fernando Krieger Merico a partir de textos de José Roque Junges (Ecologia e Criação – Loyola, 2001), Luiz González-Quevedo, Paul Schweitzer e Josafá Carlos Siqueira (Um Sentido para a Vida: Princípio e Fundamento – Loyola, 2007), Spencer Custódio Filho (Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola – Loyola, 2004).

Brasília, setembro/2008

É necessário, sempre e a cada momento, percebermos os desafios que nos são colocados e como respondemos a estes desafios. As ameaças que nossa organização social e econômica impõe à capacidade de sustentação da vida exigem uma reflexão à luz de nossa fé. Mexe com nossa espiritualidade porque não é possível dissociá-la do mundo circundante. O que os cristãos de hoje podem fazer para não perder as pegadas de Cristo?

Esta reflexão se faz a partir de uma série de abordagens de outros autores, referenciados ao final do texto, e se constitui, portanto, em esforço de sistematização de idéias. São elementos que podem nos ajudar a construir coletivamente uma espiritualidade da sustentabilidade.

É evidente que os pontos apresentados não esgotam o tema. Eles são, antes de tudo, um convite aos leitores para que voltemos nossos olhares aos caminhos e descaminhos da humanidade.     

 

Criação: Expressão/Reflexo da Trindade

Trindade é essencialmente relação. Deus trino se estabelece criando, sustentando, cuidando, conduzindo, perdoando. Na metáfora do sol, Deus seria o próprio sol, a origem de tudo. Jesus Cristo, sua luz, ou seja, o meio pelo qual Deus chega até nós. O Espírito Santo, o calor, o vento, que nos aquece e movimenta. São elementos inseparáveis em profunda relação.

A natureza toda é fundada em uma, ainda incompreensível em sua totalidade, teia de relações. Tudo está em relação com tudo, dentro e fora do planeta Terra. As coisas visíveis se constituem em um equilíbrio dinâmico que co-evolui. Todas as formas de vida e as diferentes manifestações da energia co-evoluem na história cósmica.

A ciência expressou esta percepção nas duas leis da termodinâmica. Lei 1: “a energia no universo é constante”, ou seja, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas se transforma em que? Em novos padrões que conduzem a evolução. Então temos a Lei 2: “a entropia tende ao máximo”, ou seja, os novos padrões de energia vão se conduzindo em uma direção sem retorno.

Sendo que todas as plantas, a água, a luz, as estrelas e todo o mais interagem continuamente na história do universo, e se transformam também continuamente, podemos facilmente enxergar na natureza que nos rodeia as mesmas relações que constituem a Trindade. Esta é, então, a primeira e necessária conclusão: a Criação é expressão/reflexo da Trindade.

 

Criação Continuada

A segunda percepção fundamental, derivada da anterior, é que o Espírito Criador de Deus está presente no mundo. Seu sopro vital continua criando, sustentando, cuidando, conduzindo toda a teia de relações que evolui. Isto nos conduz à idéia de criação continuada. A Trindade pôs em movimento a criação e ela evolui em direção a novas possibilidades. A criação está aberta à história, está aberta à intervenção humana, o que pode nos levar à salvação ou à danação.

Sendo o ser humano o elemento mais complexo derivado desta atividade criadora, dotados que somos de livre arbítrio e de poderoso sistema nervoso central, podemos alterar os rumos da criação. Somos, então, co-responsáveis pela criação.

Deveríamos utilizar toda a nossa capacidade para colaborar com a criação, ajudando-a a evoluir em direção a novos equilíbrios dinâmicos. O livro do Gênesis nos coloca, seres humanos, exatamente desta maneira: representantes de Deus perante a criação. Nem sempre agimos assim, e então chegamos ao século XXI com uma gigantesca crise ambiental.

 

O Esgotamento dos Recursos Relacionais

Além do esgotamento dos recursos naturais, vivemos hoje um esgotamento dos recursos relacionais. Se Trindade é relação, deveríamos cuidar das relações entre nós, seres humanos e entre a humanidade e a natureza. Estas relações não vão bem, caracterizam-se pela violência.

O ápice da Criação não seria, assim, o sexto dia, o da criação do ser humano. Seria o sétimo, o dia do descanso, da relação, da não-dominação. A não-dominação de gênero, de etnia, de classes. A não dominação sobre as outras formas de vida e sobre os processos mantenedores dela.

A cooperação deveria ser a tônica nas relações, revertendo o esgotamento relacional sistêmico em nossa sociedade. As relações Trinitárias não são hierárquicas, não são dominadoras, não são consumistas e nem destruidoras. A imitação das relações Trinitárias nas relações humanas abriria novos caminhos para a humanidade.  

 

Uso Ordenado das Criaturas

O Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola nos coloca que o ser humano deve ... ”usar das coisas tanto quanto o ajudem para atingir seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem”. Atingir o seu fim é servir a Deus. Não como escravo, mas como amigo, filho, companheiro, interlocutor.

Usar das coisas é necessário e lícito, como nos diz o próprio livro do Gênesis. Entretanto, “tudo me é permitido, mas eu não me deixarei escravizar por nada” (1Cor 6,12). A destinação universal dos bens é para satisfazer as necessidades humanas. Ar, água, solo, biodiversidade, clima, são todos bens de uso comum. Mas considerando-se a limitação de recursos naturais, devemos utilizá-los de modo sensato, fraterno e solidário, para que não falte para ninguém. Somos filhos de Deus, mas não filhos únicos.

Devastar a natureza, cortar suas relações, negar seus frutos para parte da humanidade e para os que estão por nascer é contrário ao projeto Trinitário de criação e sustentação.

 

Ordenar as Afeições Desordenadas

Há uma pedagogia nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio que leva o praticante a superar, quanto possível, os obstáculos interiores, ou seja, suas afeições desordenadas, que impedem escutar e seguir os apelos de Deus. Ordenar a vida e encontrar a vontade de Deus corresponde à inserção da liberdade humana na história da salvação. A questão ambiental em todas as suas dimensões é reflexo de nossas afeições desordenadas, e o seu ordenamento a maneira de cooperar com Deus Trino na evolução cósmica.

Na medida em que o ser humano está inserido na natureza, ou para reconhecer e respeitar nela a grandeza de Deus ou para destruí-la e desorganizá-la, a superação da crise ambiental exige uma conversão das pessoas e das estruturas sociais. Uma atitude concreta, pessoal, de renúncia ao consumismo, à exploração predatória, à injustiça institucionalizada, à degradação de ambientes e ecossistemas é essencial.

Não bastam, de mesma maneira, soluções periféricas. É necessário mudar o modo de organizar a sociedade e a economia para vivermos dentro dos princípios estabelecidos na natureza. Os princípios relacionais da biosfera permitem que tenhamos os recursos necessários a todos, desde que estes princípios sejam respeitados. Mas isto pressupõe o ordenamento de nossas afeições.

 

Natureza Dessacralizada

Enxergar a Trindade na natureza poderia, ao longo da história, nos levar à ameaça do panteísmo, de pensar que a natureza é Deus. Isto nos levou a um distanciamento entre Deus e o mundo visível, abrindo as portas para uma visão mecanicista e utilitarista do mundo. Uma natureza dessacralizada pode ser, facilmente, objeto de estupro e descarte. Ciência e fé devem avançar juntas para compreender as belezas da criação.

Assim, a análise puramente científica da realidade é uma forma de fundamentalismo. Aceitar apenas aquilo que pode ser provado cientificamente não basta para dar sentido à vida, porque descarta o transcendente. As referências indispensáveis ao mistério, à utopia, ao amor, aos ideais de verdade, à beleza, ao encantamento, à bondade, não são dadas pela ciência. Mas a ciência é fundamental para nos explicar a realidade. Na fé que busca entender de Santo Anselmo, a ciência é o caminho para conhecer e entender a criação. Desprezar a ciência é um desprezo ao Criador.

A sacralização da natureza corresponde a uma atitude de abertura do coração a um sentimento religioso cósmico, para aí encontrar a manifestação do Criador e experienciar um encontro pessoal com Ele. “Quem põe em marcha o exército das estrelas, uma a uma, chamando cada uma pelo nome?” (Is 40,26).

 

A Aliança com Deus: Manter a Árvore da Vida

Deus fez uma aliança com todos os seres viventes (Gn 9,8-15). A fidelidade à esta aliança deve nos servir de inspiração teológica para nosso processo permanente de relação com todas as criaturas, sobretudo as mais frágeis e vulneráveis.

A dimensão do servir, inspirada na aliança com Deus, deve se expressar em atitudes solidárias a favor da Criação, seja pelas mediações das ciências, pelos gestos cotidianos de preservar os recursos naturais, pelos engajamentos em processos de conscientização. Todas estas são formas de louvor e reverência.

A partir do momento que adquirimos consciência do bem e do mal (Gn 3) nossa tarefa central passa a ser cuidar da Árvore da Vida, a que gera frutos para todas as gerações. A Árvore da Vida é a essência da sustentabilidade, a manifestação da Trindade. Por isso, São João no último capítulo de seu livro do Apocalipse (Ap 22) vê, finalmente, a Árvore da Vida curando as nações...