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10 de janeiro de 2010
   
 

Batismo do Senhor
Isaias 42,1-4.6-7
Salmo 28,1-4.9-11
Atos 10,34-38
Lucas 3,15-16.21-23.

 

No catecismo aprendemos (ou aprendíamos!) que o sacramento é sinal eficaz da graça. Expressa, a ação da graça em nós, mas também a faz. Esta eficácia não é mágica, fundamenta-se na fidelidade de Deus, que age amorosamente, respeitando a liberdade humana, mas de forma gratuita, soberana, independente de nosso mérito ou comportamento. Claro que o sacramento é tanto mais frutuoso, quanto melhor correspondemos à graça que Deus primeiro nos dá – de graça.

Vale a pena seguir a pré-história do batismo, ao celebrarmos o batismo de Jesus: a evolução do sinal nos ajuda a entendê-lo melhor.

Ponto um, o batismo dos prosélitos. Prosélito (ou “geora”, em aramaico) era o pagão que decidia adorar Javé e seguir a religião de Israel. Havia dois graus de prosélitos.
O “prosélito da porta” cria que só há um Deus, criador do céu e da terra, justo e bom. De algum modo o único Deus se havia feito conhecer mais por Israel. Assim que os profetas eram sentinelas e mestres da fé no único Deus verdadeiro. (Uma vez, ao preparar ato interreligioso com rabino, o padre anglicano nissei que estava conosco disse com humor sutil mas com razão, que os cristãos somos todos “prosélitos da porta”).

O “prosélito da justiça”, além disto, se circuncidava, cumpria toda a Torá. Em tempos de Davi e de Josias, o amonita ou o heteu que o fazia, para todos os efeitos religiosos e políticos era membro do povo de Israel. Na sua adesão à Torá, o prosélito da justiça devia ser mergulhado ritualmente várias vezes antes de se circuncidar e tomar um novo nome. Digamos, o “verdadeiro” nome do grego Sóstenes passava a ser Sofonias. Ele nascia de novo; o banho ritual também relembrava e simbolizava o líquido da placenta materna no parto.

Ponto dois, o batismo dado por João. João de Zacarias aparece anunciando a irrupção próxima do Reino de Javé e pregando a conversão, como preparação para o Reino. Traz uma novidade radical e chocante: o israelita que quiser se abrir ao Reino e começar vida nova tem que se batizar, como o pagão que vai participar na sinagoga. Ao se reconhecer pecador e querer conformar sua vida à vontade de Javé, este israelita tem que aceitar passar pela purificação e renascimento simbólico. Em nada é melhor que o pagão que adora Javé.

O batismo dado por João incomodou geral os velhotes sagazes do morro de Sião, os príncipes dos sacerdotes. Para começo de conversa, João é um desertor e insubmisso: filho único de sacerdote, devia ter substituído seu pai Zacarias no serviço do Templo. Mas incomodou mais ainda por reduzir os filhos de Israel á condição dos pagãos à face de Javé. Por isto mandam uma comissão de sacerdotes e doutores de Lei interpelar João, com que autoridade vem agora com este batismo. Ele os chama de “raça de víboras!”.

Ponto três, o batismo assumido por Jesus. Agora Jesus aparece – fora de Israel - na beira oriental do Jordão querendo se batizar. João cai de todas as nuvens. Para ele não faz sentido absolutamente algum, Jesus passar pelo batismo de conversão e renascimento. Resiste, como vemos em relatos dos outros evangelhos. Jesus lhe responde que deve ser assim mesmo. Ele, Jesus, nos planos do Pai, quer ser batizado.

O sentido do batismo assumido por Jesus evidentemente é diverso daquele do banho ritual do prosélito ou do israelita que se quer emendar para preparar o Reino.
 Primeiro, na lógica mesma da encarnação. O Filho de Deus é nosso companheiro, quer assumir a sorte humana até às últimas conseqüências, “amar-nos até o fim”, como outro João diz. Mesmo não sendo pecador, Jesus não quer ser exceção, solidariza-se com os pecadores arrependidos que se batizam.
 Segundo, na lógica da Redenção. Os Padres da Igreja ensinam que Jesus redime aquilo que assume. Ao nos unir a Ele, nos comunica o Espírito, a vida divina nos salva, nos resgata. No seu batismo Ele instaura o gesto simbólico sacramental pelo qual sua Igreja vai nos unir a Ele nela, que por isto é seu Corpo Místico. Pelo batismo, começamos a formar um corpo uns com os outros, com Ele.

Mas há mais. Ao se batizar, Jesus professa sua continuidade com a tradição profética de Israel, cujo elo imediato é João. Sabemos e cremos que Ele é muito mais do que continuador: é coroamento do jorro profético de Israel. Mas de certa forma ao se inserir no movimento de João, Jesus recapitula em si Elias e Oséias, Amós e Isaias e todos os profetas do seu povo.
A Igreja nascente entendeu que o batismo de Jesus tinha a ver com a Epifania, é o segundo grande momento de apresentação de Jesus ao mundo. Os judeus de língua grega tomaram a palavra “Epifania” do anúncio do imperador ou do procônsul, retroativamente, para a solene apresentação do Filho de Davi, do príncipe herdeiro de Judá, quando o rei dizia: “Este é meu filho querido, que há de reinar depois de mim”. Agora, no batismo de Jesus, é o Pai que rasga os céus para dizer “Este é meu Filho amado”.

Sobre Jesus vem o Espírito em forma de pomba. A pomba é mansa, fiel, pousa suavemente. Se a gente se lembra que “Espírito” na língua de Jesus é feminino, “Ruah”, este símbolo da ação suave e fiel do Espírito ganha luz especial.
Ponto quatro, o batismo dado por Jesus por mão da igreja. Pelo seu batismo, Jesus se solidariza conosco; une-nos a ele pelo nosso batismo, que sua Igreja nos dá em seu nome.
O batismo do prosélito ou o que João promovia eram sinais de conversão, de nova relação com Deus, de renascimento, de nova criatura, de novo nome, mas em si mesmos não mudavam a pessoa. Claro que Deus, fiel e generoso, concedia graça especial a quem se batizava.

Mas o batismo na Igreja em nome da Trindade faz realmente o que simboliza, num primeiro nível independente de nós. O batismo nos faz filhos com o Filho. É um novo nascimento, recebemos diante de Deus um novo nome, somos nova criatura. Pelo batismo, o Espírito nos traz participação real na vida divina, que costumo comparar: é o DNA da Trindade em nós.

Com o batismo, também somos destinados a continuar a missão de Jesus profeta, sacerdote, rei, em bem do novo povo de Deus e da humanidade ao redor.

Num segundo momento, a graça sacramental é ativada em nós pela nossa resposta, dentro de nossas possibilidades.
Desde os primeiros séculos, a igreja batizava crianças filhas de pai e mãe cristãos, porque estas crianças, mesmo sem o saberem, podiam ser associadas a Cristo, tornar-se filhas e filhos com o Filho. Eram os “infantes”, até o momento em que “recebiam o Espírito Santo” no sacramento que chamamos confirmação. Durante mais da metade do primeiro milênio, havia igrejas que não contavam como dois sacramentos, mas como dois graus do sacramento, viam a confirmação como completude do batismo, sobretudo no sentido da missão régia, sacerdotal e profética.

Batizados e confirmados, eram “leigos” e “leigas”; a palavra “leigo” originalmente quer dizer “cidadão”, “membro do povo”. Neste sentido, o leigo é o cidadão pleno do novo Israel, a Igreja.

Matriz de São José em Sobradinho DF
capela da Santíssima Trindade do CCB

Autor: Pe.Antonio Abreu .sj