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03 de janeiro de 2010
   
 

Epifania
Isaias 60,1-6
Salmo 71,2.7-8.10-13
Efésios 3,2-3.5-6
Mateus 2,1-12

 

O nome litúrgico oficial da festa de hoje é Epifania. A tradição popular católica brasileira a chama de ‘”Santos Reis”; é de nossa cultura chamar festas, ruas e cidades com nomes de gente.

Durante séculos, a festa se celebrou a 6 de janeiro. Ao lado de 25 de dezembro era uma das datas do Natal nas igrejas orientais. Quando Roma e o Ocidente seguiram o bom exemplo das igrejas irmãs, fixaram em 25 de dezembro o nascimento mesmo (e visita dos pastores, maternidade de Maria, Sagrada Família, apresentação no Templo); e em 6 de janeiro a visita dos Magos (com batismo no Jordão e bodas de Caná). O breviário que os padres rezamos hoje dia ainda tem versos sobre o batismo e as bodas.

6 de janeiro não é mais feriado; a festa é importante; a Igreja no Brasil no século XX passou a celebrá-la no domingo depois de Ano Novo.

Vou comentar primeiro os Magos que certamente são santos mas dificilmente reis, como explico. Depois falo do sentido de Epifania e da leitura que a Igreja nascente fez da visita dos Magos.

O evangelho nos diz que “uns Magos” vieram seguindo esta estrela até Belém, onde encontraram Jesus Cristo. Há muita discussão entre os estudiosos, sobre o fato.

O povo cristão na Idade Média achou que deviam ser reis. A Igreja Primitiva considerava que representavam os “povos da Terra” junto ao Menino pequenino. Dentro da mentalidade medieval, se representavam os povos, deviam ser reis. Mas não há registro nos anais de Herodes, de uma comissão de reis passando por Jerusalém. O serviço romano de informação, organizado e que não dormia em serviço, teria prestado atenção neste grupo de reis do Médio Oriente chegando de repente em seus camelos e comitivas.
O evangelho não diz o número. Podem ter sido três. Nos primeiros séculos, há representações de cinco e de sete Magos. O três se fixou por causa dos presentes, ouro, incenso, mirra. Leão, bispo de Roma, decisivo na introdução do Natal no Ocidente no século V, já supõe três numa homilia, sem discutir.

Definitiva foi a catedral de Colônia, na Alemanha, cujos padroeiros são os Magos. Os cristãos louros do norte de Europa foram evangelizados mais tarde, meio milênio, que os morenos do Mediterrâneo. Sabiam que os outros os olhavam como os que chegam “de fora”. Em Colônia escolheram os Magos como padroeiros, com humor alemão: seco e profundo. Sua representação dos padroeiros como três - com ouro incenso e mirra - fixou o número de vez.

Bem, mas o que o evangelho diz e que nos interessa mesmo é que eram Magos. Isto é importante, determinante. Mago quer dizer astrólogo. É, eu disse astrólogo, alguém que cultua as estrelas e crê no seu influxo na vida das pessoas. O Antigo Testamento martela, com força, que o único Senhor de nossa vida é Javé, as estrelas são servas nossas como todas as coisas. A Escritura abomina o culto das estrelas.
Os povos latinos falamos dos “Reis”, o que provavelmente não eram. Os anglo-saxões falam dos “sábios do Oriente”, o que provavelmente eram, mas o evangelho não diz. Disfarça, disfarça, o que o evangelho diz mesmo é que eram astrólogos. Já ouvi interpretar “xeiques do Médio Oriente”, nada fundado no evangelho; caso de xeiques sem fundos. Tudo indica que estavam mais para pagés que para caciques.
Nossos amigos saem de casa portanto encharcados de boa vontade e de procura de Deus, mas iluminados por uma idéia religiosa errada. Vão caminhar animados por uma crença errônea. Corrijo: atraídos – e traídos - pelo carinho do Pai, que seqüestra a religião inadequada deles para levá-los no caminho certo.

Em Jerusalém, recorrem a quem entende de Torá, da religião, da Escritura, do Deus de Israel. Onde deve nascer o menino? Os príncipes dos sacerdotes e uma equipe de doutores da Lei sabem lindamente, decorzinho, onde: Miquéias diz, em Belém de Judá.

Pois é, minhas doces irmãs e meus generosos irmãos: os que sabiam da religião e citavam Miquéias com tanta competência bíblica, foram a Belém? Ah, não? Quem chegou a Belém? Os da idéia religiosa errada, que procuravam com boa vontade! Muitas vezes os que se julgam por dentro, ficam sentados em cima da própria religião, da própria moral, da própria doutrina correta. Muitas vezes os que vêm de fora procurando sinceramente, são os que acham.

Pois é mesmo, mas quando encontram Jesus, a estrela some.
Isto não diminui em nada o valor e importância de conhecer a Palavra de Deus, de participar na Igreja. Não quer dizer que “tanto faz”. Deus é imensamente amoroso e guia a todos os de boa vontade. Mas quem já encontrou Jesus não tem mais que seguir as estrelas.

Epifania que dizer “apresentação”. Era uma apresentação solene.

Digamos: o “filho de Davi”, príncipe herdeiro de Judá, chegava à maioridade. O rei o apresentava solenemente aos anciãos, sacerdotes e altos funcionários do reino – por sinal, cansados de conhecer o rapazola davídico. Assim tipo Asá anuncia: “Este é meu filho muito querido Josafá, que há de reinar depois de mim”.

Epifania a rigor era o anúncio do imperador em visita ou do procônsul que chegava para governar a província do Império Romano. A elite de Antioquia se reunia num saguão de palácio imperial para recepcionar; o arauto anunciava: “Eis convosco o Augusto Marco Aurélio Antonino, imperador de Roma!”.
A Igreja primitiva “leu” a ida dos Magos a Belém como convocação afetuosa do Pai a todos os povos da Terra para lhes apresentar seu Filho. Os Magos são pagãos, não são israelitas; vimos como vêm religiosamente “de fora”.
Isaias havia anunciado o papel de Israel nos planos de Javé como luz para as nações. Paulo fala aos efésios deste desígnio misterioso e cheio de amor de Deus, chamar todos os povos nações, culturas à salvação em Jesus. Assim os cristãos primitivos – os efésios e outros de língua grega, os romanos, os etíopes, armênios e persas – todos se sentiam representados por aqueles pagãos de boa vontade. Eles mesmos iam a Jesus seguindo a luz de Israel, como Isaias anunciara.

Como vimos, os cristãos medievais acharam que os Magos eram reis, para credenciá-los como representantes dos povos. Quando os portugueses nos anos l300 e tantos começaram a bordejar a África, descobriram que ao sul da África moura havia outra África, ainda mais cheia de sol e de cor, habitada por gente negra. E negros e mais negros e negras. Então a Cristandade sentiu que um dos Magos devia ser negro, senão os povos da terra não estavam representados. Gente escura a oriente de Israel eram os etíopes. Então um Mago era etíope. Azar dos chineses e japoneses, que quando navegadores europeus chegaram a eles, a Idade Média havia acabado.

A festa de hoje é a da universalidade da salvação e do anúncio em Jesus Cristo: a todos os povos, todas as nações, todas as culturas, todos os grupos humanos.

Matriz de São José em Sobradinho DF
capela da Santíssima Trindade do cCB

Autor: Pe.Antonio Abreu .sj