O Natal surgiu na Igreja no século V, em reação alegre e afetuosa do povo fiel diante das correntes e discussões teológicas sobre a encarnação e a pessoa de Jesus, que começaram no século III mas esquentaram no IV e V. Aos poucos, o povo cristão foi tirando vários gomos da festa, como de uma fruta madura e gostosa. Entre estas festas iniciadas a partir do Natal, está a de Maria Mãe de Deus, 8 dias depois do Natal, no dia 1º de janeiro.
O Concílio de Éfeso definiu no dia 11/10/431, que podemos e devemos chamar Maria “Mãe de Deus”. Mais tarde a festa foi transferida na liturgia católica para 11 de outubro por causa disto. Mais recentemente, após o Concílio Vaticano II, na década de 60 do século passado, nossa Igreja a trouxe de volta para janeiro. Claro que a Maternidade Divina é glória de Maria, a maior glória que possa ter uma Mulher. Claro também que hoje louvamos e agradecemos a Deus pela resposta generosa e constante que Maria deu às graças que recebeu. Mas quando os bispos em Éfeso ensinaram solenemente que podemos e devemos dizer que Maria é “Mãe de Deus”, sua preocupação de pastores era esclarecer o povo simples, sobre a pessoa de Jesus. Que o filho de Maria e o Filho eterno do Pai são o mesmo.
O teólogo pode formular assim: “a Palavra, de que fala João e na qual tudo foi criado, Deus com o Pai e o Espírito Santo, se fez carne e habitou entre nós nascendo de Maria”. O povo simples para entender o mesmo, diria: “Maria é de verdade Mãe de Deus”. Diante das explicações sofisticadas que ouvia das diversas correntes em luta, o povo dos pobres perguntava: ”mas, segundo o que Vocês dizem, Maria é Mãe de Deus, sim ou não?”. Então, em Éfeso, os bispos responderam pastoralmente; “Sim, Maria é Mãe de Deus”. Então faz sentido celebrar a festa na órbita do Natal; não é prerrogativa isolada de Maria.
Atenção, 1º de janeiro não era Ano Novo até o século XVI, quando o papa Gregório XIII reformou o calendário e fez o ano começar em janeiro, no tempo de Natal. Antes o ano que herdamos dos romanos, começava em março. “Setembro” era o mês sete, agora é nove. “Dezembro” era o dez, agora é doze.
As leituras giram muito ao redor da bênção e do bendizer e de nossa filiação divina, pela união com Jesus.
A bênção e o bendizer são avenidas de duas mãos assimétricas. Tudo em nossa relação com Deus é assimétrico, porque somos criaturas finitas, não tem como a relação com Deus ser perfeitamente simétrica. A tentação de se ver como parceiro “à altura de Deus”, aparece às vezes em gente muito moral e religiosa, como por exemplo na parábola do fariseu e do publicano: o primeiro agradece a Deus por ser ele mesmo tão moral, religioso, exemplar; parece que Deus é quem teria de agradecer.
Quando Deus nos abençoa, está nos concedendo graças, nos garantindo o de que precisamos para estar bem, realizar seu plano afetuoso a nosso respeito. Meu coirmão P. Iglesias perguntou na periferia de Belo Horizonte à comunidade, “o que é bênção?”, como recurso na homilia para começar a dizer o que é. Mas uma velhinha simples levantou a mãozinha trêmula e disse “bênção é uma chuva de graça de Deus em cima da gente”. A bênção de Deus é a atuação concreta de seu amor por nós.
Com freqüência no Antigo Testamento as pessoas, mesmo piedosas como vários salmistas, associavam benção de Deus com rebanho fecundo, derrota dos inimigos, prestigio na tribo. Os profetas sempre procuraram completar e corrigir esta idéia. Hoje em dia certos grupos religiosos recuperam aquela idéia que os profetas queriam corrigir e falam como se Deus fosse uma eterna e todo-poderosa Caixa Econômica em que você investe numa caderneta de poupança chamada dízimo.
De nossa parte, quando bem-dizemos a Deus, a rigor não Lhe acrescentamos nada. Nós somos os que precisamos crescer na confiança e na alegria do louvor de Deus. Certa senhora disse a minha mãe “ah, eu só rezo pedindo, Deus não precisa de meu agradecimento e louvor”. Minha mãe não gostou, sentiu alguma coisa errada, pensou um pouco e disse: “é, também nem tem que pedir, Ele sabe o que você precisa; a gente pede porque Ele quer que a gente tenha fé e confiança, assim também a gente agradece, ué!”.
Há também quando a gente “abençoa” o outro. Mas esta é uma oração pedindo que Deus abençoe o outro. Só refletir no que dizem avós analfabetas e rezadeiras ao neto que lhes pede a bênção: “Deus te abençoe, meu neto”. Ela está intercedendo junto a Deus, pelo neto. Como a irmã caçula de meu avô paterno, que ainda conheci nonagenária e senil. O noivo da bisneta, jovem cavalheiro gentil, culto e sofisticado, afeito a beijar mão de damas, curvou-se gracioso diante da cadeira dela e lhe beijou a mão. Ela reagiu solene: "Deus te abençoe, menino”. Na tradição e cultura dela, noivo de bisneta beijando mão de bisavó da noiva é claro pedido de bênção; ela mandou sua intercessão em favor dele.
Paulo, escrevendo aos gálatas em grego, usa de repente para Deus uma palavra aramaica sem tradução precisa em grego, nem em português. “Abbá” não é exatamente “papai” - nem o nordestês “painho”. “Papai” tem uma raiz infantil embora no contexto correto seja bonito um adulto carinhoso falar assim de seu pai. Mas em hebraico e aramaico, há dois substantivos para “pai” (como para “mãe”), que conotam diferente. Nós não temos substantivos possessivos, como temos pronomes e adjetivos. Em aramaico e hebraico, se falo de qualquer pai é uma palavra (“Ab”), mas se eu falasse com sêu Edmundo de Abreu (meu pai que Deus o tenha) ou falo dele, é outra (“Abbá”). A palavra para “minha mãe” é “Immá”. Aí Paulo vem escrevendo em grego e não agüenta, tem que usar a palavra que usava para o comerciante e transportador judeu de Tarso, de quem era filho. Deus não é um “Pai qualquer”, um “Pai objetivo”. Em aramaico no Pai-Nosso Deus é “Abinu”, a mesma coisa, só que agora possessivo do plural. Se com minhas manas e manos, eu tivesse que me dirigir ao sêu Edmundo em aramaico, diria “Abinu”.
No evangelho, o Menino é circuncidado e recebe o nome Jesus. “Yehoshuah” quer dizer “Javé salva”. “Salva”, vem a ser, nos abençoa, derrama sobre nós tudo que precisamos para estar bem e sermos plenamente.
Matriz de São José
Sobradinho DF |
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| Autor: Pe.Antonio Abreu .sj |
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